na primeira parte desta seleção, falamos sobre identidade, pertencimento, desempenho, vulnerabilidade e as expectativas que podem moldar a maneira como os homens enxergam a si mesmos.
agora, podemos ampliar essa conversa.
porque ser homem também passa por outras experiências que atravessam a vida adulta: construir uma carreira, sustentar uma família, exercer a paternidade, lidar com perdas, envelhecer e descobrir quem somos quando os papéis que desempenhamos deixam de ser suficientes para definir nossa identidade.
é justamente aí que o cinema se torna novamente um bom companheiro.
não porque os filmes tragam respostas prontas, mas porque permitem observar essas questões à distância. Podemos reconhecer comportamentos, discordar de escolhas, compreender personagens e, às vezes, perceber alguma coisa sobre nós mesmos.
para a PIPO, essa também é uma forma de oferecer experiências à comunidade: ampliar repertório cultural e criar oportunidades para olhar para a própria vida por perspectivas diferentes.
6 dicas de filmes para refletir sobre masculinidade
nesta segunda parte de indicações, selecionamos seis filmes que ajudam a pensar sobre poder, família, paternidade, responsabilidade, dor e envelhecimento.
1. O Poderoso Chefão (1972)
- direção: Francis Ford Coppola
- gênero: drama, crime
- com: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan e Robert Duvall
poucos filmes retrataram tão profundamente a relação entre masculinidade, poder e família quanto O Poderoso Chefão.
à primeira vista, a história parece ser sobre uma família envolvida com o crime organizado. Mas, por trás da estrutura da máfia, existe outra narrativa: a formação de homens que aprendem que proteger a família significa assumir responsabilidades, exercer autoridade e, muitas vezes, abrir mão de partes de si mesmos.
Michael Corleone é especialmente interessante nesse sentido.
ele começa a história tentando permanecer distante dos negócios da família. Aos poucos, porém, circunstâncias e escolhas o aproximam do papel que inicialmente rejeitava.
e então surge uma pergunta difícil: quando responsabilidade e poder começam a se confundir?
Michael acredita estar fazendo aquilo que precisa ser feito para proteger sua família. Mas cada decisão também o afasta da pessoa que ele pretendia ser.
o filme permite pensar sobre uma ideia muito presente na masculinidade tradicional: a de que o homem deve assumir o controle quando as coisas ficam difíceis.
responsabilidade é uma virtude. Mas será que assumir responsabilidade significa necessariamente controlar tudo?
lançado em 1972, O Poderoso Chefão recebeu oito indicações ao Oscar e venceu três: Melhor Filme, Melhor Ator para Marlon Brando e Roteiro Adaptado.
mais de cinquenta anos depois, continua sendo uma obra poderosa justamente porque não apresenta poder como algo simplesmente desejável. O filme mostra também o preço de conquistá-lo e preservá-lo.
vale assistir se você gosta de: grandes sagas familiares, dramas de personagens, cinema clássico e histórias sobre poder e lealdade.
assista ao trailer:
2. À Procura da Felicidade (2006)
- direção: Gabriele Muccino
- gênero: drama biográfico
- com: Will Smith e Jaden Smith
À Procura da Felicidade costuma ser lembrado como uma história de perseverança. E é, de fato, uma história sobre alguém que enfrenta dificuldades extremas para reconstruir a própria vida.
mas existe outra leitura interessante quando observamos Chris Gardner pela perspectiva da masculinidade.
Chris não está apenas tentando sobreviver. Ele está tentando cumprir aquilo que acredita ser sua responsabilidade como pai: proteger o filho e construir para ele uma vida melhor.
o filme toca, portanto, em uma ideia muito forte do imaginário masculino: o homem como provedor.
a capacidade de sustentar, proteger e garantir segurança para a família pode ser uma fonte legítima de orgulho. Mas também pode se transformar em uma pressão silenciosa: a sensação de que fracassar profissional ou financeiramente significa fracassar como homem.
a história real que inspirou o filme é particularmente dura. Chris Gardner passa por desemprego, falta de moradia e dificuldades financeiras enquanto cuida do filho. A produção acompanha sua tentativa de conseguir uma vaga em um programa de treinamento extremamente competitivo.
Will Smith recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator por sua interpretação.
o mérito do filme está em mostrar que responsabilidade e vulnerabilidade podem coexistir. Chris precisa ser forte para seguir em frente, mas sua força não elimina o medo, a insegurança ou a exaustão.
talvez essa seja uma maneira mais humana de pensar sobre o papel de provedor: não como a obrigação de nunca falhar, mas como a disposição de continuar cuidando mesmo quando a vida não está sob controle.
vale assistir se você gosta de: histórias inspiradas em fatos reais, dramas familiares e narrativas de superação.
assista ao trailer:
3. Manchester à Beira-Mar (2016)
- direção: Kenneth Lonergan
- gênero: drama
- com: Casey Affleck, Michelle Williams e Lucas Hedges
alguns filmes falam sobre superação. Manchester à Beira-Mar faz algo mais raro: permite pensar sobre a possibilidade de que nem toda dor precise terminar em superação.
Lee Chandler é um homem marcado por uma tragédia. Quando uma nova perda o obriga a retornar à cidade onde cresceu, ele precisa confrontar um passado do qual tentou se afastar.
o filme não transforma Lee em um personagem que encontra rapidamente uma solução para seu sofrimento. Ele é silencioso, fechado e muitas vezes incapaz de expressar aquilo que sente.
e justamente por isso existe aqui uma discussão importante sobre masculinidade.
homens frequentemente aprendem a administrar a dor em silêncio. A continuar trabalhando. A não incomodar. A resolver o problema. A seguir em frente.
mas algumas experiências não podem simplesmente ser “resolvidas”.
Manchester à Beira-Mar é poderoso porque não trata a vulnerabilidade como um momento passageiro antes de o personagem voltar a ser forte. A dor faz parte dele.
o filme recebeu seis indicações ao Oscar. Casey Affleck venceu como Melhor Ator e Kenneth Lonergan venceu o prêmio de Roteiro Original.
é uma experiência cinematográfica especialmente interessante para quem está acostumado a histórias nas quais o protagonista sempre encontra uma maneira de vencer suas dificuldades.
às vezes, a coragem não está em superar.
às vezes, está em continuar vivendo.
vale assistir se você gosta de: dramas profundos, personagens complexos e histórias que não oferecem respostas fáceis.
assista ao trailer:
4. O Lutador (2008)
- direção: Darren Aronofsky
- gênero: drama esportivo
- com: Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood
o que acontece quando aquilo que nos dava valor deixa de existir? Essa é uma das perguntas centrais de O Lutador.
Randy “The Ram” Robinson foi uma estrela do wrestling. Anos depois, vive com as consequências de uma carreira construída em torno do próprio corpo, da performance e da admiração do público.
o problema é que o personagem não sabe muito bem quem é quando não está lutando.
essa questão pode ser particularmente familiar para muitos homens. Durante boa parte da vida, identidade e valor pessoal podem ser associados ao que fazemos: profissão, desempenho, dinheiro, corpo, conquistas, reconhecimento.
enquanto conseguimos desempenhar esses papéis, tudo parece funcionar.
mas o tempo passa.
o corpo muda. A carreira termina. Os filhos crescem. Os amigos seguem outros caminhos. O reconhecimento diminui.
e então surge uma pergunta que talvez tenhamos adiado por décadas:
quem sou eu quando deixo de fazer aquilo que me fazia sentir importante?
Mickey Rourke recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator por sua interpretação, e Marisa Tomei foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.
mais do que um filme sobre wrestling, O Lutador é uma reflexão sobre envelhecimento, identidade e a dificuldade de construir uma vida que continue fazendo sentido quando a juventude e a performance deixam de ser os principais elementos da nossa autoestima.
vale assistir se você gosta de: dramas humanos, histórias sobre esporte e personagens em busca de uma segunda chance.
assista ao trailer:
5. Capitão Fantástico (2016)
- direção: Matt Ross
- gênero: drama, comédia dramática
- com: Viggo Mortensen, George MacKay e Samantha Isler
e se uma das maiores responsabilidades de um homem não fosse apenas cuidar de si, mas ajudar outra pessoa a descobrir quem ela pode ser?
Capitão Fantástico acompanha Ben, um pai que cria os filhos de maneira bastante particular, longe dos padrões convencionais de educação e sociedade.
o filme é interessante porque não transforma Ben em um modelo perfeito de paternidade. Pelo contrário: apresenta suas virtudes e também suas contradições.
ele é dedicado, intelectualmente estimulante e profundamente presente na vida dos filhos. Ao mesmo tempo, sua visão de mundo pode se tornar rígida demais.
é justamente aí que o filme ganha força.
ser pai não significa apenas transmitir valores. Também significa perceber quando nossos próprios valores precisam ser questionados.
essa talvez seja uma das dimensões mais interessantes da masculinidade adulta: compreender que autoridade não precisa significar ter sempre a resposta.
um pai também pode aprender com os filhos.
Viggo Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator pelo papel de Ben.
Capitão Fantástico vale especialmente para quem gosta de filmes que tratam de família sem transformá-la em uma estrutura perfeita. É uma história sobre educação, liberdade, responsabilidade e sobre a difícil tarefa de preparar alguém para um mundo que não podemos controlar.
vale assistir se você gosta de: filmes sobre família, paternidade, educação e histórias que apresentam diferentes maneiras de viver.
assista ao trailer:
6. Beleza Americana (1999)
- direção: Sam Mendes
- gênero: drama, comédia dramática
- com: Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch
o que acontece quando uma vida aparentemente bem-sucedida deixa de fazer sentido?
Lester Burnham tem aquilo que, por muito tempo, foi apresentado como o ideal de sucesso masculino: emprego, casa, família e estabilidade financeira. Ainda assim, sente-se completamente desconectado da própria existência.
Beleza Americana acompanha sua crise de meia-idade e, ao mesmo tempo, questiona uma série de ideias associadas ao sucesso, ao desejo e à realização pessoal.
o filme é interessante para pensar sobre a masculinidade porque Lester percebe que passou anos desempenhando papéis — profissional, marido, pai — sem necessariamente se perguntar quem existia por trás deles.
há também uma crítica à necessidade de preservar uma determinada imagem. A família precisa parecer perfeita. A carreira precisa demonstrar sucesso. A casa precisa representar estabilidade. O próprio homem precisa transmitir que está no controle.
mas o que acontece quando a imagem permanece intacta e a pessoa por trás dela começa a desaparecer?
o filme também permite discutir a crise de meia-idade sem reduzi-la simplesmente à ideia de um homem tentando recuperar a juventude. Existe algo mais profundo: a percepção de que o tempo passou e talvez algumas escolhas tenham sido feitas mais por expectativa do que por desejo.
Beleza Americana venceu cinco Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Sam Mendes, Melhor Ator para Kevin Spacey, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia.
é uma obra que pode provocar sentimentos bastante diferentes — e algumas de suas escolhas envelheceram de maneira controversa. Isso também faz parte da experiência de revisitá-la: assistir hoje permite perceber tanto aquilo que permanece relevante quanto aquilo que merece ser questionado.
vale assistir se você gosta de: dramas sobre relações familiares, histórias de crise existencial e filmes que questionam a ideia de sucesso e felicidade.
assista ao trailer:
mais do que uma lista de filmes
essas doze obras, reunidas nas duas partes desta seleção, não apresentam uma definição de masculinidade.
e talvez essa seja justamente a ideia.
alguns personagens procuram poder. Outros procuram reconhecimento. Alguns tentam ser provedores. Outros não sabem como lidar com a própria dor. Há homens que se escondem atrás da força, homens que transformam desempenho em identidade e homens que descobrem, muitas vezes tarde demais, que não sabem quem são sem os papéis que desempenharam durante toda a vida.
o cinema nos permite observar tudo isso sem precisar transformar cada história em uma regra.
porque ser homem não deveria significar cumprir perfeitamente um roteiro pronto.
pode significar também ter repertório para questionar esse roteiro.
e talvez uma boa experiência cultural comece exatamente aí: quando uma história termina, mas a pergunta continua conosco.
qual dessas perguntas você levaria para a sua própria vida?




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