cinema é muito mais do que entretenimento. É uma forma de arte capaz de nos colocar diante de experiências que talvez nunca vivamos, de personagens que talvez nunca conheçamos e de perguntas que nem sempre fazemos sobre nós mesmos.
um bom filme pode provocar uma conversa, mudar uma perspectiva ou simplesmente permanecer na memória por muito tempo depois dos créditos. É justamente por isso que arte e cultura também fazem parte de uma vida mais rica: ampliar repertório é, de certa maneira, ampliar as possibilidades de enxergar o mundo — e a nós mesmos.
para a PIPO, cuidar do homem também passa por oferecer experiências. Não apenas produtos, informações ou serviços, mas referências que possam estimular curiosidade, reflexão e novas maneiras de olhar para a própria vida.
e poucas questões são tão interessantes para isso quanto a masculinidade.
afinal, o que significa ser homem? Quanto daquilo que entendemos como força, sucesso, coragem ou responsabilidade realmente escolhemos? E quanto simplesmente aprendemos ao longo da vida?
não existe uma única resposta. E o cinema pode ser um ótimo lugar para começar a procurar algumas delas.
6 dicas de filmes para refletir sobre masculinidade
nesta primeira seleção PIPO, reunimos cinco filmes que apresentam homens muito diferentes entre si, mas que têm algo em comum: todos ajudam a questionar os papéis, expectativas e conflitos que podem existir por trás da ideia de “ser homem”.
1. Clube da Luta (1999)
- direção: David Fincher
- gênero: drama, suspense
- com: Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter
talvez poucos filmes tenham se tornado tão associados a uma determinada ideia de masculinidade quanto Clube da Luta. Mas existe uma ironia importante nessa associação: o filme não é simplesmente uma celebração da violência ou da virilidade. Ele pode ser lido justamente como uma crítica à tentativa de encontrar identidade por meio delas.
o protagonista é um homem anônimo, inserido em uma vida marcada pelo consumo, pelo trabalho e por uma sensação crescente de vazio. Sua existência parece organizada, mas lhe falta algo mais difícil de comprar: um sentido de identidade.
é nesse espaço que surge Tyler Durden, personagem que encarna uma espécie de resposta radical àquela frustração. A violência, a transgressão e a rejeição das convenções passam a oferecer aquilo que faltava: pertencimento, intensidade e a sensação de estar novamente vivo.
o problema é que uma identidade construída exclusivamente pela oposição também pode se transformar em outra prisão.
é aí que o filme permanece atual. Em diferentes momentos, homens podem ser ensinados a procurar seu valor em força, desempenho, dinheiro, status, aparência ou capacidade de dominar situações. Quando essas coisas deixam de funcionar como fontes de satisfação, pode surgir a sensação de que existe algo errado conosco.
Clube da Luta é interessante porque pergunta se o problema está realmente no mundo ou na maneira como tentamos encontrar nosso lugar nele.
vale assistir se você gosta de: filmes psicológicos, narrativas ambíguas, David Fincher e histórias que continuam sendo discutidas muito depois do final.
assista ao trailer:
2. Whiplash: em busca da perfeição (2014)
- direção: Damien Chazelle
- gênero: drama musical
- com: Miles Teller e J.K. Simmons
em Whiplash, Andrew Neiman quer ser um grande baterista de jazz. Para isso, entra em uma relação extremamente exigente com o professor Terence Fletcher, que acredita que a excelência só pode surgir quando alguém é levado ao limite.
o filme é eletrizante justamente porque transforma uma pergunta aparentemente simples — “até onde você iria para ser excelente?” — em algo muito mais desconfortável.
a obsessão pelo desempenho é uma característica frequentemente associada à masculinidade contemporânea: produzir, vencer, suportar pressão, não demonstrar fraqueza e provar constantemente que somos capazes.
Whiplash leva essa lógica ao extremo.
a certa altura, a questão deixa de ser apenas se Andrew será um grande músico. O que passa a importar é quanto de sua própria vida ele está disposto a sacrificar para provar que merece ser considerado um.
o filme não oferece uma resposta fácil. E talvez essa seja sua maior qualidade. Ele nos obriga a separar duas coisas que frequentemente confundimos: excelência e sofrimento.
ser exigente consigo mesmo pode ser uma virtude. Mas quando a dor passa a ser entendida como prova de valor, existe o risco de transformar autodestruição em mérito.
a obra recebeu cinco indicações ao Oscar e venceu três: ator coadjuvante para J.K. Simmons, montagem e mixagem de som.
vale assistir se você gosta de: dramas intensos, música, histórias sobre obsessão e personagens levados ao limite.
assista ao trailer:
3. Moonlight: sob a luz do luar (2016)
- direção: Barry Jenkins
- gênero: drama
- com: Trevante Rhodes, André Holland, Mahershala Ali e Naomie Harris
talvez nenhum filme desta seleção fale de maneira tão delicada sobre a construção da identidade masculina quanto Moonlight.
a história acompanha Chiron em três momentos de sua vida: infância, adolescência e vida adulta. Ao longo desse percurso, ele tenta entender quem é enquanto convive com pobreza, violência, ausência, desejo, afeto e expectativas sobre o que deveria significar ser um homem.
o mais interessante é que o filme não transforma masculinidade em um conceito abstrato. Ela aparece nos gestos, nos silêncios, na postura corporal e na maneira como os personagens aprendem — ou deixam de aprender — a demonstrar afeto.
Chiron percebe muito cedo que existe uma determinada maneira de se comportar para ser reconhecido como homem. Ser vulnerável pode significar exposição. Demonstrar medo pode significar fraqueza. Demonstrar afeto pode representar um risco.
por isso, Moonlight é também uma história sobre o preço de esconder partes de si.
o filme ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2017, além de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali.
mais do que uma história sobre masculinidade, porém, Moonlight é uma história sobre identidade: sobre o que acontece quando passamos anos tentando sobreviver dentro de uma versão de nós mesmos que talvez nunca tenha sido verdadeiramente nossa.
vale assistir se você gosta de: dramas sensíveis, cinema autoral e histórias sobre identidade, pertencimento e relações humanas.
assista ao trailer:
4. Ataque dos Cães (2021)
- direção: Jane Campion
- gênero: drama, faroeste psicológico
- com: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee
o faroeste tradicional construiu alguns dos maiores arquétipos da masculinidade no cinema: o homem solitário, forte, agressivo, independente e emocionalmente impenetrável.
Ataque dos Cães pega justamente esse arquétipo e começa a desmontá-lo.
Phil Burbank parece representar tudo aquilo que se espera de um homem daquele universo. É agressivo, dominador, habilidoso e profundamente preocupado em preservar sua imagem diante dos outros homens.
mas quanto mais o filme avança, mais percebemos que a força exibida por Phil não conta toda a história.
e essa talvez seja uma das questões mais interessantes do filme: o que existe por trás de uma masculinidade que precisa ser constantemente demonstrada?
a obra de Jane Campion trabalha com silêncio, tensão e subtexto. Muitas coisas importantes não são ditas diretamente. Elas aparecem em olhares, gestos e comportamentos.
em 2022, Campion venceu o Oscar de Melhor Direção, enquanto o filme recebeu 12 indicações, incluindo Melhor Filme, Ator e Roteiro Adaptado.
Ataque dos Cães vale especialmente pela capacidade de mostrar que a masculinidade pode ser uma performance. E que, às vezes, quanto mais alguém precisa provar que é forte, mais podemos nos perguntar sobre aquilo que está sendo escondido.
vale assistir se você gosta de: dramas psicológicos, faroestes diferentes e filmes que exigem atenção aos detalhes e ao que não é dito.
assista ao trailer:
5. Eu Não Sou Um Homem Fácil (2018)
- direção: Éléonore Pourriat
- gênero: comédia, sátira, romance
- com: Vincent Elbaz e Marie-Sophie Ferdane
depois de quatro filmes bastante densos, Eu Não Sou Um Homem Fácil traz uma mudança importante de tom.
a comédia francesa acompanha Damien, um homem assumidamente machista que acorda em uma realidade alternativa na qual as relações de poder entre homens e mulheres foram invertidas. A partir daí, ele passa a experimentar situações que antes pareciam absolutamente normais quando direcionadas às mulheres.
a premissa é simples, mas a proposta é bastante eficiente: mudar o lugar de quem observa para tornar visíveis comportamentos que normalmente passam despercebidos.
a Netflix classifica o filme como comédia, sátira e comédia romântica.
para o público masculino, talvez o maior valor da obra esteja justamente no desconforto. O filme não precisa apresentar uma longa argumentação para perguntar: como determinadas atitudes parecem quando somos nós que estamos do outro lado?
é uma maneira mais leve de pensar sobre machismo cotidiano, privilégios e expectativas de gênero.
e talvez uma das funções mais interessantes da arte seja essa: criar distância suficiente para que possamos enxergar aquilo que, quando estamos dentro da situação, parece invisível.
vale assistir se você gosta de: comédias inteligentes, sátiras sociais e histórias que usam humor para provocar reflexão.
assista ao trailer:
6. O Show de Truman (1998)
- direção: Peter Weir
- gênero: comédia dramática, ficção científica
- com: Jim Carrey, Laura Linney e Ed Harris
e se a vida que você construiu não tivesse sido exatamente escolhida por você?
essa é a pergunta que começa a surgir para Truman Burbank, um homem que vive uma existência aparentemente perfeita: tem uma casa, um emprego, uma esposa e uma rotina confortável. O problema é que tudo ao seu redor foi cuidadosamente construído — e ele é a única pessoa que não sabe disso.
O Show de Truman não é, à primeira vista, um filme sobre masculinidade. E justamente por isso ele é uma escolha interessante para esta seleção.
a história permite pensar sobre identidade e sobre as expectativas que recebemos antes mesmo de termos condições de questioná-las. O que fazemos, como nos comportamos, qual carreira seguimos, que tipo de relacionamento buscamos e até mesmo aquilo que entendemos como sucesso podem ser influenciados por ideias que aprendemos ao longo da vida.
para os homens, isso pode aparecer de muitas formas: a expectativa de construir uma carreira bem-sucedida, formar uma família, ser financeiramente estável, demonstrar segurança e ocupar determinado lugar na sociedade.
Truman passa a perceber que existe algo errado quando começa a desconfiar do roteiro que lhe foi entregue.
talvez a questão mais interessante do filme não seja descobrir quem está controlando sua vida, mas perceber que liberdade também significa ter coragem para questionar aquilo que sempre pareceu normal.
lançado em 1998, o filme recebeu três indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator Coadjuvante para Ed Harris, além de indicações ao BAFTA e ao Globo de Ouro. Jim Carrey venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama por sua interpretação.
mais de duas décadas depois, a história continua atual porque fala de algo bastante humano: a dificuldade de distinguir aquilo que realmente desejamos daquilo que aprendemos a desejar.
vale assistir se você gosta de: ficção científica com reflexão filosófica, histórias sobre identidade e filmes que fazem você olhar para a própria rotina de outra maneira.
assista ao trailer:
para continuar pensando
os cinco filmes desta primeira seleção apresentam homens muito diferentes. Alguns procuram força. Outros procuram reconhecimento. Outros tentam esconder quem são. Há quem transforme sofrimento em desempenho e quem transforme violência em identidade.
mas existe uma pergunta atravessando todos eles:
quanto daquilo que entendemos como masculinidade é realmente nosso — e quanto aprendemos que deveríamos ser?
talvez não exista uma resposta definitiva. E talvez não precise existir.
às vezes, uma boa experiência cultural não serve para nos dar respostas. Serve para melhorar as perguntas que fazemos.
na segunda parte desta seleção, vamos olhar para outras dimensões da experiência masculina: poder, família, paternidade, responsabilidade, dor, sucesso e envelhecimento.
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